[Imagem de Ricardo e Maiena]

Maiena & Ricardo

Hospital Naval de Recife Divisão de Medicina

Aos nossos eternos Chefes e Amigos,

Aqui quem fala neste momento não é apenas o CT Mauriston. Empresto minha voz para que ela soe uníssona, carregando o sentimento de 36 oficiais médicos e 4 praças que, hoje, sentem o peso agridoce da partida.

A "movimentação", essa constante na nossa vida de farda, nos impõe hoje a separação física, mas também nos oferece a oportunidade de celebrar o ciclo que se encerra. Vocês, que por mais de dez anos serviram neste Hospital Naval de Recife, agora partem para assumir novas missões na Nau Capitânia do Sistema de Saúde da Marinha, o Gigante Hospital Naval Marcílio Dias.

Mas nós não poderíamos deixá-los partir levando apenas memórias imateriais. Sentimos que era preciso que vocês levassem um pedaço físico de Pernambuco, algo que tivesse "chão", raiz e história, para ancorar com Altos Coqueiros a casa que vocês montarão nas terras da Guanabara.

Para materializar o que as palavras, por vezes limitadas, mal conseguem expressar, nós lhes entregamos este Leão de Nuca.
[Imagem do Leão de Nuca]

Leão de Nuca - Tracunhaém/PE

Esta obra não foi escolhida ao acaso. Não se trata apenas de um souvenir de barro de Tracunhaém. Esta peça carrega uma sabedoria que espelha, de forma quase mágica, a vida de vocês dois.

Contam as histórias do barro sagrado de Tracunhaém que o saudoso Mestre Nuca, ao criar seus famosos leões, era responsável pela estrutura: ele moldava o corpo forte, as patas firmes, o porte altivo de guarda. Mas o leão ainda não estava pronto. Era preciso a intenção de Dona Maria, sua esposa e parceira de toda uma vida. Era Maria quem, com paciência infinita e delicadeza nas pontas dos dedos, criava e aplicava, um a um, os cachos da juba que coroam a obra.

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Nuca dizia com orgulho:
"O leão é meu. O cabelo é dela".

Olhando para vocês, vemos essa mesma simbiose perfeita. Ricardo e Maiena, em uma dança de liderança rara, alternaram-se magistralmente entre ser a força que sustenta a estrutura da nossa Divisão e a delicadeza que cuida dos detalhes humanos de cada um de nós. Vocês foram, para nós, a fusão de Nuca e Maria: estrutura e arte, comando e acolhimento, PAIS E LÍDERES.

Este leão, forjado nel fogo dos fornos de Tracunhaém, é também símbolo de resistência. Assim como o barro cru precisa passar pela prova das altas temperaturas para se tornar cerâmica eterna, vocês passaram pelo "fogo" das exigências da nossa profissional e da vida militar aqui no HNRe. Vocês saem daqui "queimados", não no sentido de exaustão, mas no sentido de têmpera: estão mais fortes, mais resistentes, prontos para qualquer missão.

Mas este leão que vocês levam possui uma postura específica. Notem a cabeça erguida, as narinas abertas e a crina que parece lutar contra o vento. Se assemelha a um militar em posição de sentido, imobilidade de formatura, cabeça erguida e olhar fixo na linha do horizonte. Ele personifica a liderança nata e a altivez. Este leão é o herdeiro direto das revoluções libertárias que fazem de Pernambuco um estado diferente de todos os outros. Ele carrega a fibra de 1817, o idealismo da Confederação do Equador de 1824 e a resiliência da Revolução Praieira de 1848.

Essa mesma fibra, essa incapacidade de se dobrar diante das dificuldades, nós vimos em vocês. Vocês foram nossos chefes, mas exerceram uma liderança que transbordava o regulamento. Foi um cuidado de pais para filhos, um zelo com os mais modernos que nos ensinou que a hierarquia não precisa ser fria para ser respeitada. Com vocês, aprendemos a ser leões: a ter a força para o combate, mas a nobreza para o acolhimento.

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"Foi um cuidado de pais para filhos, um zelo com os mais modernos que nos ensinou que a hierarquia não precisa ser fria para ser respeitada"

Levem este leão como o Guardião da Porta do novo lar. A tradição diz que ele protege a casa contra energias ruins e vigia a felicidade da família. Que ele lhes recorde, nos dias difíceis, que vocês possuem a garra do "Leão do Norte".

Como nos ensinou o poeta João Cabral de Melo Neto em A Educação pela Pedra, vocês nos deram uma educação 'de fora para dentro'. Uma 'cartilha muda', ensinada não por discursos vazios, mas pela 'carnadura concreta' do exemplo diário. Aprendemos com vocês a ter a 'resistência fria ao que flui', a sermos resilientes como a pedra do sertão de Serra Talhada.

[Imagem do Hospital Naval Marcílio Dias]

HNMD: destino à altura da grandeza profissional

Agora, o destino e o dever os chamam à Sede. Vocês seguem para a Clínica de Anestesiologia do Hospital Naval Marcílio Dias, a nossa "Nau Capitânia". É um destino à altura da grandeza profissional de vocês. Mas sabemos que deixar o Recife dói, porque o Recife é um estado de espírito que nos habita. Como nos ensinou Manuel Bandeira, em sua Evocação do Recife:

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"Recife...
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância"
(Livro Libertinagem, 1930)

Sabemos que a saudade virá, inevitável. E quando ela vier, que seja como na Evocação de Bandeira. Que ao olharem para este leão de barro em sua nova casa, não vejam apenas uma escultura inanimada. Que sintam o cheiro do Capibaribe, fazendo surgir o Atlântico ao encontrar o Beberibe. Ouçam o eco dos nossos corredores e lembrem-se do "Recife sem história nem literatura, Recife sem mais nada, Recife da nossa infância" profissional compartilhada, onde vimos a pequena Sofia crescer e onde crescemos pessoal e profissionalmente juntos como família naval.

Lembrem-se sempre que, onde quer que estejam, vocês levam a marca indelével do Leão do Norte. Como diz a canção que ecoa em nossa alma Pernambucana: "Eu sou de Casa Forte, sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte". Vocês são a encarnação dessa força.

Vão com Deus, Maiena, Ricardo e pequena Sofia. O Marcílio Dias ganha dois gigantes e uma família. Nós ficamos aqui, com o coração apertado, mas com a alma "educada pela pedra" e pelo afeto imenso que vocês nos deixaram como legado.

Recife, 22 de janeiro de 2026.

[Assinatura]

CT (Md) MAURISTON

Em nome da Divisão de Medicina do Hospital Naval de Recife

[Foto Ampliada]